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18/05/2019 08:10:45

Exposição reúne releituras de obras de Picasso feitas por apenados em Porto Alegre

Exposição reúne releituras de obras de Picasso feitas por apenados em Porto Alegre

A Fundação Patronato Maria Tavares foi transformada em uma espécie de galeria de arte para uma exposição que tem início neste sábado (18) em Porto Alegre (veja o serviço abaixo). As obras que ocupam o segundo andar do casarão antigo, fundado em 1942, são releituras de Pablo Picasso, pintadas em acrílico por apenados que participam do Programa de Limitação de Fim de Semana.

O programa é uma das cinco formas de cumprimento de pena alternativa previstas em lei. Na capital gaúcha, existe há três anos e é destinado a pessoas que cometem delitos sem violência e grave ameaça, condenadas a penas de até quatro anos.

Em média, 60 pessoas frequentam o espaço obrigatoriamente durante os fins de semana para atividades com pedagogas, assistentes sociais e psicólogos. Os encontros duram cinco horas e ocorrem aos sábado e domingos.

Há um ano, o grupo também participa de oficinas de arte duas vezes por mês. A exposição que, pela primeira vez será aberta ao público, é resultado do trabalho feito no último trimestre. São mais de 50 obras e 30 artistas envolvidos.

O artista plástico Aloizio Pedersen, que ministra as aulas, buscou associar os temas abordados nas palestras, como violência doméstica, racismo e respeito às diferenças, a obras do pintor espanhol.

"Como arteterapeuta, juntei as principais obras do Picasso que envolvem temas como a violência, em 'Guernica', na 'Les Demoiselles d'Avignon', que inicia movimento cubista no mundo, ele vai trabalhar a relação com o feminino, a mulher", explica Pedersen.

Essa última, em exposição no The Museum of Modern Art (MoMA), em Nova Iorque, representa cinco prostitutas. Duas delas estão com o rosto coberto por máscaras africanas.

"Trouxe também 'A Vida', de Picasso, que é a obra mais simbólica dele porque vai tratar da morte", cita o artista.

Os apenados aprendem sobre a história do cubista, fazem conexões com situações rotineiras, aprendem técnicas e estilos artísticos e, por fim, em grupos, pintam a releitura de uma obra a sua escolha.

"Nunca me imaginei, por exemplo, pintando e, hoje, assinei uma tela, uma releitura de Pablo Picasso", orgulha-se um dos artistas, que preferiu manter nome e idade preservados.

"Pra gente, que está lá em um momento socioemocional diferente, aquilo ali eleva a autoestima de muita gente", garante ele.
O homem, de meia idade, cumpre pena na fundação desde agosto de 2018. Embora prefira deixar o passado para trás, concordou em contar o motivo que o levou até ali. Ele foi acusado de assediar uma adolescente no trabalho e condenado a um ano e dois meses de prisão.

De lá para cá, a vida dele mudou. Precisou se reinventar no âmbito profissional e reconstruir laços afetivos. Em paralelo, aos fins de semana, passou a acordar cedo aos sábados e domingos para comparecer aos encontros obrigatórios.

Ainda lembra das primeiras semanas no programa, desconfortável diante de tantos rostos desconhecidos e quase revoltado com a situação. Hoje, após passar por palestras, conhecer outras realidades e desenvolver habilidades artísticas, consegue perceber a evolução dos últimos nove meses.

"Estou mais tranquilo, ponderado. É uma lição, um aprendizado que vai ser levado adiante ao longo da minha vida profissional para que algumas coisas sejam melhor cuidadas", define.

"A gente acaba valorizando pequenas coisas que antes não dava tanta importância", resume.
O grupo dele escolheu fazer a releitura de "Guernica", famoso quadro que Picasso pintou em Paris durante a guerra civil espanhola em 1937. A obra denuncia o bombardeio da cidade basca de Guernica pela aviação nazista. A releitura foi dividida em quatro partes.

"Se você comparar as duas obras lado a lado, você reconhece nossa releitura de 'Guernica', mas vai conseguir perceber toques pessoais. Claro que nunca queremos nos comparar a Picasso", brinca ele.

"É um grupo bastante heterogêneo, tanto social quanto culturalmente. Ali naquele momento onde está todo mundo envolvido, criando, não existe diferenciação", observa.

Ressocialização

De acordo com o juiz da Vara de Execuções de Penas e Medidas Alternativas de Porto Alegre (VEPMA), Luciano André Losekann, embora esse tipo de cumprimento de pena alternativa conste em lei desde 1997, foi implantado em Porto Alegre há três anos graças ao Ministério Público, que entrou com uma ação contra o estado.

De lá para cá, ainda que não tenha dados oficiais sobre reincidência de crimes, o juiz garante que o programa tem apresentado resultados satisfatórios, promovendo a ressocialização dos apenados.

"A gente recebe relatórios mensais e aqueles que participam efetivamente do programa, os mais assíduos, eles mesmos relatam êxitos, eles dizem é um programa muito bom", assegura Losekann.

"Não é só pintura, é a possibilidade que ele tem de conversar e, através da arte, expor aquilo que está sentindo", detalha.
Segundo o juiz, que já atuou junto ao Conselho Nacional de Justiça, a capital gaúcha é uma das poucas cidades a oferecer essa forma de cumprimento da pena como manda a lei.

"Sem nenhum tipo de atividade não adianta, é um recolhimento", explica Losekann, comparando com o modelo de outros municípios e até mesmo dos regimes semiaberto e fechado gaúchos.

"Se não fizer tratamento penal, se não acompanhar e executar de acordo com a lei, certamente ele volta pior", constata.

G1 RS



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